domingo, 16 de junho de 2013

Midrash Centro Cultural



 
Ruy Castro e Marcelo Backes


“COMECEI A LER COM NELSON RODRIGUES”

Ruy Castro conta no Midrash como se tornou um dos jornalistas e escritores mais lidos do país

No domingo, dia 26 de maio, o Midrash Centro Cultural inaugurou o BACKES-PAPO, série de encontros comandados pelo escritor, tradutor e professor de literatura Marcelo Backes. Nesse primeiro encontro, Backes, que acaba de lançar O Último Minuto (Companhia das Letras) recebeu o escritor e jornalista Ruy Castro, autor das biografias de Nelson Rodrigues (Anjo Pornográfico, Companhia das Letras), Garrincha (Estrela Solitária, Companhia das Letras), Carmen Miranda (Carmen, Companhia das Letras), entre outros sucessos editoriais. Muito bem humorado e descontraído, Ruy contou diversos casos que marcaram sua carreira de escritor e jornalista.
Nascido em 1948, Ruy Castro falou de uma de suas primeiras memórias da infância: “Aos quatro anos, me lembro de minha mãe rindo, lendo alguma coisa no jornal. Perguntei o que era, ela me colocou no colo e leu em voz alta pra mim. Era um conto de A Vida Como Ela É..., de Nelson Rodrigues, que o jornal Última Hora publicava diariamente. Daí em diante, ela sempre lia pra mim, até que um dia eu consegui ler o título sozinho. Me lembro direitinho da emoção de decifrar a linguagem escrita pela primeira vez”.
“Comecei a ler com Nelson Rodrigues. Fui, certamente, a criança que mais entendeu de adultério no mundo”, contou Ruy, entre risos da plateia. “Eu adorava aquilo tudo. Graças ao Nelson, aos cinco anos eu já sabia ler, escrever e bater à máquina”, disse. Logo mais, o gosto pela leitura passou a incluir as crônicas de futebol: “Nelson Rodrigues era míope e, mesmo assim, narrava uma partida como ninguém. Ele não via os jogadores, mas via a alma deles”. Ruy lembrou também que foi lendo Nelson Rodrigues que ele aprendeu algarismos romanos: os folhetins Asfalto Selvagem, publicados a partir de 1959, no mesmo jornal, eram numerados em romanos.
“Na minha casa, os jornais não iam para o lixo. Não se jogavam palavras fora”
Ruy, que começou como repórter em 1967, no Correio da Manhã, no Rio, e passou por todos os grandes veículos da imprensa carioca e paulistana, falou de sua simbiótica relação com os jornais: “Na minha casa, na infância, assinávamos cinco jornais, que iam virando pilhas e pilhas, imensas. Nada ia para o lixo, não se jogavam palavras fora. É uma mania de família. Até hoje tenho esse hábito. Guardo os exemplares da semana para ler tudo no domingo. Especialmente quando o Flamengo joga. Não gosto de ver o Flamengo ser atacado e, se isso acontece, recorro ao jornal. Quando o Flamengo ataca, volto para ver o jogo”, contou o flamenguista, autor de O Vermelho e o Negro, sobre a história do time de futebol carioca.
Como biógrafo de grande prestígio e sucesso, Ruy explicou seu processo de trabalho: “Quando estou fazendo uma biografia, me torno um obsessivo. Minha esposa (a escritora Heloisa Seixas) sofre, coitada. Na biografia do Nelson, passei meses angustiado porque não conseguia descobrir a marca da escarradeira que havia na redação do jornal onde ele trabalhava. Aí, minha mulher perguntou – Mas quem é que vai prestar atenção nisso? – Ninguém, eu sei que isso não vai fazer a mínima diferença para a história, mas não posso abrir mão disso. Se abrir mão de uma informação, começo a abrir mão de outra e mais outra, e aí não faz mais sentido. Descobrir uma informação que ninguém sabe tem um prazer quase sexual”.
Outro tema abordado pelo escritor da história da Bossa Nova (Chega de Saudade, Companhia das Letras) e de Ipanema (Ela é Carioca, Companhia das Letras) foi a busca de fontes: “O mais difícil numa biografia – e o que faz total diferença – é correr atrás de pessoas que conviveram com o personagem. Nássara, Evandro Lins e Silva e Barbosa Lima Sobrinho, por exemplo, conviveram com o pai de Nelson Rodrigues, e me passaram informações valiosíssimas para a biografia dele. Jorginho Guinle foi outra fonte fundamental para mim, no livro sobre Carmen Miranda.
“Garrincha foi um homem vitorioso, dilacerado pela bebida”
Sobre a biografia de Garrincha, Ruy revelou: “Queria fazer um livro que lidasse com o tema do alcoolismo e um dia tive um estalo: Garrincha. Garrincha foi um homem vitorioso, um vencedor, que foi dilacerado pela bebida. Mas ele não bebia porque sofria. Bebia por que sua família também bebia, seu pai, seu avô... Garrincha descendia dos índios fulniôs, de Alagoas. Essa tribo tinha o antigo costume de dar uma mistura de cachaça, canela em pó e mel para as crianças pararem de chorar. Imagino que algumas deviam passar mal, e outras, com mais tolerância, podiam acabar desenvolvendo essa propensão ao alcoolismo. O Garrincha veio desse ambiente”.
Ainda sobre o jogador, Ruy contou um dos casos mais engraçados da noite: “Levei a ideia da biografia do Garrincha ao Luís Schwartz (editor da Companhia das Letras) e ele disse – Mas, Ruy, esse livro não vai vender nada. Cinquenta por cento dos leitores são mulheres, e mulheres não gostam de futebol. Você já começa com menos 50% do mercado. A outra metade você também perde, porque quem gosta de literatura não gosta de futebol – Mas não fiz um livro sobre futebol. Fiz um livro sobre uma pessoa com uma história de vida espetacular”.
"Nunca pedi autorização para escrever biografia”
Autor de romances históricos, como Era no Tempo do Rei (Alfaguarra), Ruy falou sobre seu compromisso com a verdade nos momentos em que escreve ficção e biografia. “Um dia perguntei à neta do Guimarães Rosa onde era a localização exata do Grande Sertão Veredas. – Seu avô deve ter ido muitas vezes lá, não é? – E ela respondeu – Meu avô foi uma vez só ao sertão. Ele gostava é de ir para a Europa todo ano. – Então tudo é inventado? – Sim, senão não seria ficção”, contou entre risos.
Sobre a polêmica em torno o projeto de lei que exige a autorização do retratado em biografias, Ruy revelou: "Nunca pedi autorização de nenhum dos parentes dos meus personagens para escrever sobre eles. Aliás, só fui conversar com eles para pegar mais informações quando o processo do livro estava bem adiantado. Não faz sentido pegar autorização, submeter o rascunho à aprovação e colocar um advogado para dizer o que pode e o que não pode ser revelado. O compromisso de um biógrafo é com a verdade. Até que essa questão da lei não esteja resolvida eu não me atrevo a fazer biografias."
O próximo Backes-Papo no Midrash Centro Cultural será com o também jornalista e escritor Fausto Fawcett, em 30 de junho.
Júnia Azevedo

 
__________________
Júnia Azevedo nasceu no Rio de Janeiro, em 1965, e formou-se em Comunicação Social pela PUC RJ. Atuou por 11 anos como redatora publicitária, na área de criação. Atualmente, trabalha como redatora, jornalista e assessora de imprensa no segmento de cultura. Colabora na programação do Midrash Centro Cultural, instituição sem fins lucrativos idealizada por Nilton Bonder, no Rio de Janeiro.

quarta-feira, 29 de maio de 2013

domingo, 26 de maio de 2013

dEsEnrEdoS 17

www.desenredos.com.br





EDITORIAL

Na geleia global em que navegamos, a novidade é o inédito patamar de reconhecimento acadêmico-científico que galgamos: se antes já fôramos reconhecidos pelo Capes-MEC com o Qualis em Letras e História, agora a honraria se estende para as áreas de Filosofia e Teologia. É a nossa voz, plural sem perder a coerência, que devagar impõe sua marca, fruto de muito trabalho. Voz dos que amam ouvir, debater, crescer. Voz que agora, na sua 17ª metamorfose, vem de Cabo Verde trazida pela consciência crítica do grande épico que é Corsino Fortes. Voz criativa de poetas e narradores de várias latitudes do Brasil. Voz sagaz de ensaístas e pesquisadores que nos trazem notícias de Calderón, Machado, Nelson Rodrigues, Borges, Fellini e tantos outros. Aos que gostam de falar, aos que gostam de ouvir, boa leitura!

Os editores

segunda-feira, 29 de abril de 2013

revista E - multiplicar o verbo

dEsEnrEdoS foi citada na matéria de capa da revista do Sesc São Paulo [revista E, nº 192 - maio 2013 - ano maio 13]. Boa leitura.

http://www.sescsp.org.br/sesc/revistas/revistas_link.cfm?Edicao_Id=464&Artigo_ID=6944&IDCategoria=8013&reftype=2

quarta-feira, 27 de março de 2013

Transe (2006), de Teresa Villaverde






Por estes dias, uma frase atribuída a Tom Jobim não me sai da cabeça: “O Brasil não é para principiantes”. Não vou aqui explorar a gama de sugestões contidas no dito de Jobim, mas apenas pedi-lo emprestado para falar desta magnífica diretora portuguesa: o cinema de Teresa Villaverde não é para principiantes. Não é, em primeiro lugar, por sua visceralidade difícil de suportar, mesmo por aqueles que estão afeitos à violência estilizada e paródica do cinema americano; em segundo lugar, porque se trata de um cinema vinculado àquela vertente do cinema de autor europeu, com planos lentos e elaborados, pejados de sugestões simbólicas, e estrutura narrativa quebrada. Não, não estou sugerindo que Villaverde apenas mova com competência os clichês típicos do cinema de autor: há nela uma clara busca de novas soluções, na construção narrativa e no posicionamento da câmera, que não redunda somente em rebarba esteticista.

Teresa Villaverde, se não for abuso reduzi-la a uma “escola”, pode ser colocada entre os “discípulos” de Tarkovski, a exemplo de Sokurov e de Béla Tarr (ainda que, admitamos, num patamar um pouco abaixo, por enquanto, destes dois).  Podemos caracterizar esta escola de Tarkovski por um conjunto de traços estilísticos, como o plano-seqüência, o travelling e narrativa não-linear e poética, etc. Mas podemos também caracterizá-la do ponto de vista moral e, resumindo, dizer que tal escola evita a beleza meramente funcional, que não esteja a serviço da busca da verdade e no contraponto ao esvaziamento espiritual de nossa época. Então, em última instância, o cinema de Teresa Villaverde não é para principiantes porque ele exige comprometimento moral do espectador: não dá para ir a um cinema a fim de “curtir” um filme como Transe (2006). Ou até dá (há, afinal, todo tipo de espectador que se possa imaginar: uma pessoa me disse que assistiu 9 vezes ao Tio Boonmee do Apichatpong, enquanto a maioria não o suporta por 20 minutos), mas não foi para esse fim que o filme foi pensado.

Transe conta a história de Sónia, uma russa que, cansada do seu país e dominada por uma angústia intensa, resolver ganhar a vida na Europa, numa trajetória que se inicia na Alemanha e desemboca em Portugal. Teresa Villaverde constrói uma história bifurcada a que cai muito bem o nome “transe”, vocábulo que tanto pode indicar momento difícil, crise, como sugere um estado inconsciente do sujeito, hipnotizado ou dominado por forças desconhecidas. Transe é construído com a pretensão de ser, ao mesmo tempo, um filme-denúncia (mostrando uma poderosa rede de prostituição de emigrantes envolvendo a comunidade européia) e um filme sobre os subterrâneos da mente, com ressonâncias metafísicas. Quer mostrar um transe-crise e um transe-hipnose.

Tão alta pretensão tem seu preço: a sensação de falta de urdidura. Transe é, ao mesmo tempo, um filme meticulosamente pensado e um filme mal costurado. Não faltou competência artesanal à autora, mas o salto do social ao simbólico-metafísico custou-lhe caro. Se, de saída, ela aceitasse a descostura como um dado estético, tudo bem. Mas não: senta-se em Teresa Villaverde, desde o começo, o esmero da elaboração prévia, a tentativa de controle total da encenação, a antipatia com o acaso. Há cenas isoladas em Transe que, sem sombra de dúvida, estão entre as mais belas e elaboradas que se fez no cinema pelo menos nos últimos dez anos. Mas o conjunto atinge o paradoxo de ser ao mesmo tempo bem elaborado e mal urdindo (refiro-me à harmonização dos planos real e onírico). A impressão que tenho, vendo Transe, é que real e símbolo se sobrepõem ali sem construir uma síntese.

Como crítico, costumo falar do que o filme é, não do que poderia ser. Mas desta vez não resisto: penso que se Teresa Villaverde fosse menos geômetra, se ela não se aferrasse tanto à tese de que sua protagonista deveria ilustrar a emigrante que desce, contra a vontade, ao último degrau da dignidade humana, ela teria feito uma absoluta, incontestável obra-prima. Por exemplo: para que o mau gosto da cena de zoofilia se não para comprovar que Sónia chegou ao cume da degradação? O filme pedia a cena ou a diretora queria coroar sua tese?

Duas observações finais. A atriz que protagonizou o filme (a portuguesa Ana Moreira) é simplesmente um monstro de talento e coragem. Arrisco a previsão de que Teresa Villaverde vai chegar à obra-prima, cedo ou tarde. Guardem este nome: Teresa Villaverde.  


segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Sobre alguns estilos de citar





Há os que escrevem munidos de tanta informação e leitura que se esquecem de interpretar. O texto tem a vantagem de mostrar caminhos, sugerir fontes bibliográficas preciosas, mas é zero em empenho pessoal. Este é um estilo comum na academia universitária.

Há os que tergiversam, mas têm medo da liberdade e chamam logo uma autoridade, para dar à escrita um verniz de erudição. O problema é que a citação fica mal engastada ou, pior ainda, revela uma falha no espírito do escritor, seja a presunção, o exibicionismo ou a ingenuidade.

Certa vez, numa polêmica em que me envolvi, um idiota me admoestou: “Você não viu? Eu cito Freud e Foucault, quem é você pra dizer que eles estão errados?”. Este é também um estilo comum na academia universitária: a citação não-encoste-em-mim-que-eu-estou-bem-guardado. Os citados, neste estilo de escrever, tornam-se Leões de Chácara.

Outro estilo comum é o do safado que se passa por distraído (ou do distraído que se tornou safado). Ele põe a idéia como dele, ou então, num requinte de crueldade, cita um autor A quando sua verdadeira fonte é um autor Z. Aquela coleção propedêutica famosa da Brasiliense, chamada “Primeiros Passos”, tem muito disso e em palestra é bastante comum.

Há também os que não gostam de citar, sem serem nem mal informados nem desonestos. Estes ou escrevem num estilo oracular, cheio de aforismos, dando ao escrito um sentido de revelação (no sentido religioso do termo); ou se expressam de modo antiintelectual, partindo da vida, do burburinho cotidiano. É preciso muita grandeza pra se dar bem nessas duas formas de escrita; é preciso ter lido muito, conversado com muita gente qualificada, freqüentado muito o mundo acadêmico – para depois mandar tudo às favas.

Esses estilos de citar me parecem todos desaconselháveis. Um desejo presunçoso quer me empurrar a mostrar a outra face da moeda: o que seria uma boa citação, uma citação correta e adequada. Mas não sou tolo a tal ponto, até porque desconfio que: 1) não há uma, mas várias maneiras de citar correta e adequadamente, dependendo do gênero textual em que se trabalha e a que tipo de leitor o texto se destina; 2) não sou exemplo citador diuturnamente correto.

Por fim, como se trata de uma nota sobre citação, gostaria de citar o trabalho mais denso e original que conheço sobre o tema: O trabalho da citação, de Antoine Compagnon. Não se trata de mais um manual de metodologia que classifica os tipos de citação e indica o procedimento de fazê-las; trata-se antes de uma pesquisa interdisciplinar, regida por alguém que se sente à vontade em diversos domínio, como a lingüística, a retórica, a crítica literária e a filosofia.
  


sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

dEsEnrEdoS 16



A dEsEnrEdoS (ISSN 2175-3903, Qualis B) é uma revista eletrônica de periodicidade trimestral que tem o propósito de estimular a criação artística e promover o debate de temas vinculados à literatura, língua, arte e cultura. Estamos recebendo textos - artigo, ensaio, resenha, poesia, conto, crônica e tradução - para avaliação até o dia 20 de janeiro de 2013.

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Agulha nº 4







Edição nº 04 | Fortaleza, setembro de 2012
00 | EDITORIAL | NEPHELIBATA, SOL NEGRO, POEXÍLIO: TRÊS SELOS ARTESANAIS | O desaparecimento de um suporte crítico na imprensa que fosse porta-voz de novas perspectivas editoriais gera uma preocupação sobre a origem do ovo, tema que equivale ao da descoberta da pólvora. Conversar com três editores que atuam como freio à voracidade de mercado, como pedras de toque em relação à angústia do leitor ansioso por um livro ausente, ou pequenos sinais de que o mundo não tem que ser mesmo essa bola gigante regida por um capricho em isolado. Livros sempre foram afirmativos no sentido de que não há Deus, mas sim deuses. | Texto completo: Português
01 | MACARENA BARAHONA | Alfonso Peña (1950) entrevista la poeta y ensayista Macarena Barahona (1957) | “MB | He sido persistente, y más que obstinada para lograr lo que creo como un valor que perviva… y en ser consecuente conmigo misma. Mis ideas, valores, son morales, éticos, y cada día trato de ejecutarlos. Desde niña me supe así, fiel a mí misma, honesta, la palabra resistencia por ello lleva la implicación de mi conciencia, con sus angustias y dudas, pero es mi huella. Resistir es lo que sigue a vivir, persistir es el resultado de vivir. Me aferro a la vida como mona en vendaval, he sabido ser fuerte y apasionada, he sabido amar y entregarme, también sufrir y sentirme sola y triste, he resistido en las pérdidas y las profundas desigualdades de nuestro tiempo.”  | Texto completo: Español
02 | FRANÇOIS JACOB & MICHÈLE SARDE | Betty Milan (1944) entrevista François Jacob e Michèle Sarde | “Vivemos num mundo paradoxal, em que, nos países desenvolvidos, as mulheres ocupam cada vez mais postos de grande responsabilidade, enquanto no Afeganistão, por exemplo, os talibãs impedem-nas de ir aos hospitais públicos por medo de que sejam tratadas por homens. Há ainda, neste fim de século, na dita aldeia global, verdadeiros guetos onde as mulheres não gozam dos direitos fundamentais. As tecnologias médicas do próximo século vão mudar a situação. A inseminação artificial e a clonagem modificarão as relações entre os sexos e a posição das mulheres na sociedade.” [MS]  | Texto completo: Português
03 | BENJAMIN PÉRET, AIMÉ CÉSAIRE & ANDRÉ BRETON | Ensayo de Carlos M. Luis (1932) sobre los poemas Aire Mexicano (Péret), Cuaderno de un retorno al país natal(Césaire) y Oda a Charles Fourier (Bretón) | “Lo primero que habría que destacar, es que los unen las condiciones arduas bajo las cuales los tres poemas fueron gestados. Breton y Péret se encontraban exiliados, el primero en los Estados Unidos y el segundo en México. Césaire por su parte se encontraba también exiliado en cierto sentido, obligado a vivir bajo el régimen ultra reaccionario de Vichy.”  | Texto completo: Español
04 | MARIA LÚCIA DAL FARRA | Floriano Martins (1957) entrevista a poeta Maria Lúcia Dal Farra (1944) | “De verdade mesmo escrevemos para ninguém, pelo menos para ninguém que nos ouça ou que nos leia – escrevemos sempre para quem ali não está e que, se estivesse, não se encontraria onde supomos que pudesse estar. A poesia nasce desse desencontro jamais resolvido e essa é a maneira de ela se projetar para adiante – porque procura aquele que ainda não há. A rigor, portanto, era bom que o crítico ocupasse esse lugar des-sabido e errático nem que fosse dentro da máscara de um “hypocrite lecteur” baudelaireano.”  | Texto completo: Português
05 | FREDDY GATÓN ARCE | Ensayo de José Alcántara Almánzar (1946) sobre el también dominicano Freddy Gatón Arce (1920-1994) | “Freddy Gatón Arce fue un escritor comprometido con su quehacer literario a lo largo de medio siglo de actividad, desde la publicación de Vlía, en 1944, hasta su deceso en 1994. Incluso en  etapas de silencio, cuando se dedicó al periodismo (1966-1974), con la fiereza y la integridad que le caracterizaran, la poesía fue para él nutriente indispensable, un río subterráneo que irrigaba su imaginación y lo mantenía actualizado de cuanto se escribía aquí y en el resto del mundo, preparándolo para la reanudación tan esperada, acontecimiento que ocurrió en 1980 con la publicación de Son guerras y amores, libro galardonado con el Premio Anual de Poesía.”  | Texto completo: Español
06 | FERNANDO MONTEIRO | Artigo de José Castello (1951) sobre livro de Fernando Monteiro (1949) publicado pela Sol Negro Edições | “Fazer poesia em tempos tão iluminados, remexer nas sombras quando todos se afogam nas luzes de um presente perpétuo e embriagante, parece ainda mais estranho. Pois a poesia é uma lâmpada que age ao contrário: em vez de lançar luz sobre o obscuro, ela risca traços de sombra sobre a luz insuportável. É assim, pelo menos, que Fernando Monteiro a manipula: como um perfurador, que talha e derrete a banalidade da existência.”  | Texto completo:Português
07 | STANLEY KUBRICK | Ensayo de Luís Carlos Muñoz (1957) sobre el director Stanley Kubrick (1928-1999) | “Uno de los hechos humanísticos, sociales y artísticos, e incluso políticos y filosóficos, más importantes del Siglo XX, por el tratamiento y la vigencia de su tema y por el contenido y la virulencia de sus imágenes, lo constituye la realización de uno de los filmes emblemáticos del director Stanley Kubrick, nacido en Nueva York y afincado en Londres, donde pasó gran parte de sus últimos 15 años: A Clockwork Orange (1971) o Una naranja mecánica, de la cual en 2011 se ha celebrado el cuadragésimo aniversario y cuyo original literario homónimo, de Anthony Burgess (1917-1993), ha sido tan vapuleado e incomprendido, citado y no leído, como la versión del cineasta gringo-anglo”  | Texto completo: Español
08 | SOPA D’OSSO | Artigo de Márcio Simões (1979) sobre o livro Ypý-Opá, do poeta Sopa d’Osso | “Numa época em que se tem a impressão de que ‘tudo já foi dito’, se esquece que há dois mil e quinhentos anos nosso saber comum já afirmava que “nada há de novo sob o sol”. No entanto, o mundo nunca deixou de renovar-se, e a existência nunca repetiu um momento sequer, uma mesma forma, uma mesma de suas exalações. Uma das faces da vida é de fato a da perpétua mudança, a da destruição – e renovação – contínuas. É justamente essa circularidade do saber antigo – e essa novidade contínua – que apontam o desenrolar deste Ypý-Opá, de sopa d’osso.”  | Texto completo:Português
09 | FLORIANO MARTINS | Ensaio de Nicolau Saião (1946) sobre a fotografia de Floriano Martins (1957) | “Neste impressionante acervo de quarenta e cinco máscaras proposto por Floriano Martins – http://agulhafloriano.wix.com/florianomartins#!galeria-ii – o que de imediato salta aos olhos é a sua modificação expressiva. Não são máscaras, digamos, para usar mas para contemplar, para ver, na verdade para que o destinatário – que é o público em geral, se assim me exprimo – se encontre frente ao mistério que elas sugerem. Que elas são – constituindo matéria ora de maravilhamento, ora de espanto, ora de inquietação (ora mesmo de medo) frente ao inusitado da transfiguração.” | Texto completo: Português
10 | CÉSAR MORO | Ensayo de Omar Castillo (1958) sobre el poeta César Moro (1903-1956) | “En el sentido estricto que ello implica en la existencia de un ser humano, César Moro fue un rebelde. En las acciones  de su existencia y en las de su escritura no pactó con los intereses que usurpan la integridad de la cual aun puede disponer una persona. Su actitud marginal fue rotunda y permite creer en el poder de subversión y revelación que posee la palabra y su escritura en un mundo de sistemas organizados por razones que justifican la penuria y la impotencia. Un mundo entrampado en la obediencia y en la ignorancia.”  | Texto completo: Español
11 | FERNANDO ARRABAL | Samuel Vásquez (1949) entrevista el dramaturgo Fernando Arrabal (1932) | “Se esperaba que a la muerte de Franco yo pasara factura puesto que Franco había prohibido mi teatro, Franco me había metido en la cárcel, y yo había escrito la única carta pública a Franco, una carta editada en Francia a más del millón de ejemplares. Eso quiere decir que, como era bilingüe, la compraron sobre todo los españoles. Entonces se esperaba que yo pasara factura. Que yo me pusiera como un excombatiente, y eso me molestó. Desde el primer momento yo pensé que el franquismo era agua pasada que no movía ningún molino y que había que construir otras cosas.”  | Texto completo: Español
12 | JOÃO CABRAL DE MELO NETO | Ensaio de Selma Vasconcelos (1942) sobre o poeta João Cabral de Melo Neto (1920-1999) | “O projeto poético de João Cabral foi fundado na procura obsessiva do apuro da linguagem, de tal modo, a perseguir o silêncio como fronteira do dizer. Para isso lhe serve de espelho o conceito poético de Jorge Guillén que tem a clareza e o equilíbrio da escrita como fio condutor para atingir a perfeição na comunicação com o mundo.”  | Texto completo: Português
ARTISTA CONVIDADO | ENRIQUE DE SANTIAGO | Ensayo autobiográfico del artista chileno Enrique de Santiago (1961). | “Desde mi punto de vista el concepto no conocido, es la información que busco, sin abandonar o suprimir el ejercicio de la realidad (en una forma parcial) , más bien pretendo conjugar o no hacer practica de lo absoluto, esto permite enriquecer la obra, darle más puntos de vista, sin temor incluso a hacerla abundante, disponer de los elementos combinatorios entre lo sintético y la abundancia analítica, esto no puede perjudicarla, lo que sí la limita es la perspectiva del tiempo en que el artista y el espectador se enclaustran, como sujetos de limitados o acotados, conceptos o ideas sociales y filosóficas.”  | Texto completo: Español



                    

Agulha Revista de Cultura
editor geral
FLORIANO MARTINS
editor assistente
MÁRCIO SIMÕES
logo & design
FLORIANO MARTINS
revisão de textos & difusão
FLORIANO MARTINS | MÁRCIO SIMÕES
equipe de tradução
ALLAN VIDIGAL | ÉCLAIR ANTONIO ALMEIDA FILHO | FLORIANO MARTINS | GLADYS MENDÍA | LUIZ LEITÃO DA CUNHA | MÁRCIO SIMÕES | MILENE M. MORAES
jornalista responsável
SOARES FEITOSA | DRT/CE, reg. nº 364, 15.05.1964
apoio cultural
JORNAL DE POESIA
contatos
FLORIANO MARTINSCaixa Postal 52817 - Ag. Aldeota | Fortaleza CE 60150-970 BRASIL
agulha.floriano@gmail.com | floriano.agulha@gmail.com | arcflorianomartins@gmail.com
MÁRCIO SIMÕESRua do Sobreiro, 7936 Cidade-satélite | Natal RN 59068-450 BRASILmxsimoes@hotmail.com | arcmarciosimoes@gmail.com
registro de domínios para a internet no brasilwww.revista.agulha.nom.br
banco de imagens
acervo | TRIUNFO PRODUÇÕES LTDA
os artigos assinados não refletem necessariamente o pensamento da revista
os editores de ARC não se responsabilizam pela devolução de material não solicitado 
não desejando mais receber este anúncio, favor enviar e-mail solicitando exclusão
todos os direitos reservados © triunfo produções ltda
CNPJ 02.081.443/0001-80

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

revista TRIPLOV número 32



 
  ÍNDICE

Marco Antonio Campos | Sostiene Pereira revisitado

Maria Azenha | Alguns sinais  de ouro breve

Adelto Gonçalves |Para decifrar o enigma amazônico

Raimundo de Moraes | O amor que ousou dizer seu nome (entrevista a Paulo Azevedo Chaves)

Paulo Azevedo Chaves | A festa 

António Justo | Arte, artistas e observadores - O nós também aspira a ser eu

Hermínia Lima | «De olhos entreabertos», de Aíla Sampaio, um cantar feito de voos de pássaros
e partidas de trens

Brian McCabe | Três poemas, em tradução de Francisco José Craveiro de Carvalho

Nicolau Saião | Sobre Máscaras, de Floriano Martins

Joaquim Simões | Três poemas

A. M. Galopim de Carvalho | José Bonifácio de Andrada e Silva  (1763-1838)

Zingonia Zingone | Equilibrista del olvido

Manuel Almeida e Sousa | Tácticas



LIVROS

Ricardo Daunt | Orpheu: prosa, poesia e arte (PDF)



PRESENÇA DA DIREÇÃO

Maria Estela Guedes | Os maçons governam o mundo?



http://www.triplov.com/

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Valente (Brave, 2012, Pixar)





A fórmula de Valente, novo filme da Pixar dirigido por Brenda Chapman e Mark Andrews, não é nova: o uso da estrutura do conto de fadas para refletir valores da sociedade democrática liberal é um dos lugares-comuns da estética pós-moderna no cinema. Tal tendência, repisada com insistência desde estrondoso sucesso da série Shrek, deixa implícita a idéia de que a mensagem milenar das fábulas e contos de fada envelheceu, o que me parece uma cegueira típica do culto presentista pós-moderno e sua falta de relativismo histórico. A mim, me parece claro que o anacronismo deliberado de filmes como Valente exibem não visam apenas a produção da comicidade mas também reforçam a presunção, sob diversos ângulos tola, de que vivemos numa época melhor, mais humana, mais inclusiva.

Valente é um conto de fadas feminista, que apresenta uma defesa das deliberações individuais sobre os ditames prescritos pela comunidade. Merida, filha da rainha Elinor e do rei Fergus, é criada, desde pequena, sob valores e práticas mais cabíveis, segundo aquele modelo social, a um varão. O pai de Merida, um brutamonte ingênuo mas muito dedicado à família, é o responsável por tal educação vanguardista da princesa, pois a mãe, pelo contrário, é uma tradicionalista ferrenha. Delineia-se, assim, um conflito entre as figuras arquetípicas da Mãe e da Filha: a tradicionalista rainha quer que sua filha Merida curve-se à tradição e casa-se com um dos pretendentes vindos de reinos vizinhos a fim de manter o equilíbrio político entre aqueles reinos. Mas além dos pretendentes serem tolos e desinteressantes, a princesa de cabelos ruivos e soltos (símbolo de sua rebeldia contra os costumes e usos do reino) é uma feminista avant la lettre – e, assim, reivindica o direito de escolher seu parceiro por livre vontade e desejo. A trama é complicada quando Merida, ao procurar uma bruxa muito risível, causa uma estranha transformação em sua mãe. A partir de então, o conflito dá-se não apenas no âmbito do embate entre Mãe e Filha, mas também sobre o par Homem e Natureza. Merida, a partir daí, precisa não apenas reconciliar-se com a mãe, mas – temerosa missão – fazer seu pai reconciliar-se com a Natureza e superar um antigo trauma.

É quase indispensável falar do domínio técnico da Pixar. O esplendor visual de Valente é impecável, e os efeitos em 3D ajudam a narrativa a desenrolar-se com mais complexidade e comicidade – não se constituindo, como se vê freqüentemente, tão só o ouro de tolo para impressionar os incautos. No enredo, porém, há uma solução que incomoda, pelo seu gritante simplismo. Chega a ser constrangedor o modo como os roteiristas resolvem o problema desenrolado pelo conflito entre a perspectiva feminista de Merida e o tradicionalismo da comunidade que a rodeia. Nenhuma comunidade de turrões conservadores se dispõe a quebrar os laços seculares tecidos pela tradição com tamanha facilidade!

Valente não macula o alto padrão de qualidade que se associa, com total justiça, ao nome da Pixar Animation. Mas me parece estranho a imersão da companhia no território já tão visitado pelo “inimigo” (no caso, a DreamWorks). Me parece também que, pela primeira vez, a cartilha do politicamente correto, em vez de impulsionar os criadores da Pixar, acabou por limitá-los. Merida pode encantar, pode ser engraçada e divertida, mas poucas pessoas sairão do cinema persuadidas de que ela foi capaz de persuadir guerreiros turrões e tradicionalistas a comprarem valores das democracias liberais. Essa fraqueza talvez tenha se originado do fato de que não se queria fazer de Valente um filme abertamente político, portanto, o humor e as soluções fáceis atenuaram um conflito mais complexo que envolve tanto o embate entre tradição e liberdade quanto os problemas inerentes às relações de gênero. Não digo com isso que a defesa do feminismo e da liberdade de expressão sejam tímidos no filme; digo apenas que as motivações políticas profundas de tais conflitos não foram buscadas. O saldo final, em favor do filme, fica por conta do seu esplendor visual e da comicidade cheia de subentendidos de algumas boas cenas, como a da disputa esportiva entre os pretendentes de Merida. Saldo esse, diga-se de passagem, bastante generoso.